Domingo, 6 de setembro23º Domingo do Tempo Comum · Ano A
Ganhar o irmão
Leituras: Ez 33,7-9 · Sl 94(95) · Rm 13,8-10 · Mt 18,15-20 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão."
Mateus 18,15 — tradução da CNBB, a mesma da Missa
O fio das leituras
No domingo, a Igreja escolhe a primeira leitura para combinar com o Evangelho. Hoje a combinação é clara. Ezequiel ouve de Deus: "eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel". O vigia que vê o perigo e fica calado responde pela morte do outro. Jesus, no Evangelho, diz a mesma coisa em linguagem de família: se o seu irmão errou, vá falar com ele. E Paulo, na segunda leitura, dá o motivo de tudo: "O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei." Corrigir não é o contrário de amar. É uma das formas do amor.
O texto por dentro
Estamos no capítulo 18 de Mateus, que os estudiosos chamam de "discurso sobre a comunidade". É um dos cinco grandes discursos de Jesus nesse Evangelho, e trata de como os discípulos devem viver juntos: os pequenos, a ovelha perdida, o perdão sem limite. Mateus escreve para uma comunidade de origem judaica, acostumada a regras claras de convivência. Por isso o texto tem cara de procedimento: primeiro a sós, depois com duas ou três testemunhas (isso vem da Lei de Moisés, Dt 19,15), depois a comunidade inteira.
Repare no que o texto não diz. Não diz que se deve denunciar, nem cobrar. Diz: vai corrigi-lo, em particular. O primeiro movimento é proteger o irmão da vergonha pública. E o objetivo declarado não é vencer a discussão: é "ganhar" o irmão. A palavra é de comércio, de quem recupera algo que estava perdido. Até a última medida, tratar alguém "como pagão ou pecador público", tem um detalhe: Jesus comia com pagãos e pecadores públicos. A porta nunca fecha de vez.
O trecho termina com a promessa que muita gente conhece de cor: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles". No contexto, isso é dito sobre a comunidade que corrige e perdoa. Cristo está no meio de uma comunidade que se trata com verdade.
A palavra no original
ἔλεγξονélenxon — "corrige-o", "mostra-lhe o erro"do verbo elénchō
Em grego, o verbo que Jesus usa não significa "repreender" no sentido de dar bronca. Nos dicionários, elénchō é "examinar", "pôr à prova", "demonstrar", "trazer à luz". É a palavra do tribunal e da filosofia: Sócrates "elenchava" os interlocutores fazendo perguntas até que eles mesmos vissem o problema. A ideia é fazer o outro enxergar, não humilhá-lo. Quando a gente lê "corrigi-lo" com esse sentido, o versículo muda de tom: não é um dever de acusar, é um dever de iluminar.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla no fim do século IV, pregou sobre este trecho e usou uma imagem de médico. Quem foi ofendido, diz ele, é quem está saudável; quem ofendeu está doente, "embriagado" pela raiva ou pela vergonha. Por isso o saudável é que deve ir até o doente, "tornar o tribunal privado e o remédio fácil de aceitar". E conclui: tudo isso é feito "não por causa de um castigo justo, mas da emenda" (tradução livre da Homilia 60 sobre Mateus). Para Crisóstomo, as três etapas de Jesus não são três chances de condenar, mas três tentativas de curar.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino dedica uma questão inteira da Suma Teológica à correção fraterna (II-II, q. 33). Na primeira resposta ele pergunta se corrigir o irmão é um ato de caridade, e responde que sim: tirar o mal de alguém é procurar o bem dele, e procurar o bem de alguém é exatamente o que a caridade faz. Corrigir, quando é feito assim, é amar.
O Catecismo diz o mesmo em uma linha. Ao listar o que a caridade produz, escreve que ela "exige a prática do bem e a correcção fraterna" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1829, na grafia da edição portuguesa). A correção não aparece como exceção ao amor; aparece como fruto dele.
Quem você está deixando de "ganhar" por medo de uma conversa difícil? Talvez a oração de hoje seja pedir a coragem de ir falar a sós, e a mansidão de ir como quem quer curar, não como quem quer ter razão.
Santo do dia
São Zacarias, profeta
Hoje é domingo, e o domingo tem precedência sobre qualquer memória de santo. Mas o calendário lembra Zacarias, um dos doze "profetas menores" (menores pelo tamanho do livro, não pela importância). Ele começou a pregar por volta de 520 a.C., quando o povo tinha voltado do exílio na Babilônia e precisava de coragem para reconstruir o Templo de Jerusalém. Suas visões e parábolas estão entre os textos do Antigo Testamento mais citados no Novo: o rei que entra em Jerusalém montado num jumento (Zc 9,9) e o olhar para aquele que foi traspassado (Zc 12,10) vêm dele.
Um profeta que animou gente cansada a reconstruir. Combina com um domingo sobre reconstruir relações.
Fontes e verificação
- EscrituraMt 18,15.20; Ez 33,7; Rm 13,10: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (23º Domingo TC, Ano A), conferido em 06/09/2026.
- MagistérioCIC 1829: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026. A frase final do parágrafo é de Santo Agostinho (nota 83: In ep. Ioh. 10,4).
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 60 sobre Mateus, §1-2: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10, trad. Prevost/Riddle, 1888); citações em tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 33, a. 1, corpo: newadvent.org (trad. dos Dominicanos ingleses); paráfrase.
- Léxicoelénchō: LSJ (lsj.gr), s.v.; BDAG como referência para o uso no NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 06/09.
Segunda-feira, 7 de setembro23ª semana do Tempo Comum · Ano par
A mão que volta ao lugar
Leituras: 1Cor 5,1-8 · Sl 5 · Lc 6,6-11 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?"
Lucas 6,9 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Nos dias de semana, a primeira leitura e o Evangelho seguem caminhos separados: a Igreja vai lendo a Primeira Carta aos Coríntios em sequência, e o Evangelho de Lucas em sequência. Não há um tema combinado, e é honesto dizer isso. Mas hoje os dois textos se tocam num ponto: os dois falam de uma comunidade que precisa decidir o que é vida e o que é morte. Paulo pede que os coríntios tirem do meio deles um escândalo grave, e diz o porquê: "Lançai fora o fermento velho, para que sejais uma massa nova". Jesus, na sinagoga, pergunta se o sábado serve para salvar uma vida ou para deixá-la se perder. Nos dois casos, a pergunta de fundo é a mesma: a regra existe para a vida, ou a vida para a regra?
O texto por dentro
Lucas conta duas histórias seguidas sobre o sábado (Lc 6,1-11): as espigas colhidas no campo e, agora, a cura na sinagoga. O sábado era o dia sagrado do descanso, e os mestres discutiam seriamente o que podia e o que não podia ser feito nele. Curar um doente que não corre risco de morte, para muitos, podia esperar o dia seguinte. É esse o pano de fundo: os fariseus "observavam" Jesus, à espera de um motivo de acusação.
Só Lucas diz que era a mão direita, a mão do trabalho. E só Lucas, que a tradição chama de médico, descreve a cena com esse cuidado. Jesus não cura escondido: diz ao homem: "Levanta-te, e fica aqui no meio". Põe a miséria dele à vista de todos, não para expor, mas para que ninguém possa fingir que não viu. E então faz a pergunta que vira o jogo: em vez de discutir se pode curar, pergunta se é permitido fazer o bem. Ninguém responde. O homem estende a mão. "Ficou curada."
A palavra no original
ἀπεκατεστάθηapekatestáthē — "foi restaurada", "voltou ao que era"do verbo apokathístēmi
A tradução diz "ficou curada", e está certa. Mas o verbo grego é mais preciso: apokathístēmi significa restabelecer, devolver ao estado de origem, recolocar no lugar. É a palavra que se usava para devolver uma propriedade ao dono, para restaurar um governo, para o soldado voltar à posição na fila. É também a palavra que a Bíblia grega usa para dizer que Elias virá restaurar todas as coisas (Mt 17,11). O que Jesus faz com aquela mão é o que ele veio fazer com tudo: não um remendo, mas uma restauração. Colocar de volta no lugar o que o mal tirou do lugar.
Como os Padres leram
São Cirilo de Alexandria, no século V, comentou este trecho num sermão sobre Lucas. Ele lê o gesto de pôr o homem no meio como um apelo à compaixão dos que vigiavam: a miséria daquele homem "talvez os envergonhasse e os persuadisse a apagar as chamas da inveja". E sobre a pergunta de Jesus, diz com lógica simples: se é permitido fazer o bem no sábado, "nada impede que os doentes sejam compadecidos por Deus"; e se não é permitido, então quem acusa Jesus está acusando a própria Lei (tradução livre do Sermão 23 sobre Lucas). Para Cirilo, o problema dos fariseus não era o sábado. Era a inveja.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás, ao explicar o mandamento do sábado (Suma Teológica II-II, q. 122, a. 4), lembra para que serve o descanso: para que a pessoa fique livre para as coisas de Deus. E tira uma consequência que surpreende: pecar num dia santo vai mais contra o mandamento do que fazer um trabalho lícito, porque o pecado é o que de fato afasta de Deus. O descanso não é um fim em si; é espaço para Deus agir.
O Catecismo resume a atitude de Jesus assim: "Cheio de compaixão, Cristo autoriza-Se, em dia de sábado, a fazer o bem em vez do mal, a salvar uma vida antes que perdê-la" (Catecismo, n. 2173, edição portuguesa). E acrescenta que Jesus nunca violou a santidade do sábado: ele deu a interpretação verdadeira dele.
Existe alguma "mão seca" na sua vida, algo parado, atrofiado, que você esconde? Jesus pede que fique de pé, no meio, à vista dele. Não para expor. Para restaurar.
Santo do dia
Santa Regina, virgem e mártir
No Brasil, o 7 de setembro é feriado da Independência, mas a liturgia é a de dia comum. O calendário dos santos lembra Regina, uma jovem cristã de Alise, na Gália (hoje França), no século III. A tradição conta que era filha de um governador pagão chamado Olíbrio, que ficou órfã de mãe, converteu-se, e foi morta ainda muito jovem pelo próprio pai, que preferiu matá-la a ter uma filha cristã.
É preciso dizer com honestidade: sobre Regina sabemos pouco de seguro. O que temos vem da tradição, não de documentos da época. O que a Igreja guarda dela é o essencial: uma menina que não trocou a fé pela aprovação da família.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 6,9-10; 1Cor 5,7: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (segunda-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026.
- MagistérioCIC 2173: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026 (a nota 87 do parágrafo remete a Mc 3,4, paralelo de Lc 6,9).
- PatrísticaCirilo de Alexandria, Comentário sobre Lucas, Sermão 23: texto integral em tertullian.org (trad. R. Payne Smith, 1859, a partir do siríaco e de fragmentos gregos); citações em tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 122, a. 4, resposta à 3ª objeção: newadvent.org; paráfrase.
- Léxicoapokathístēmi: LSJ e DGE (lsj.gr), s.v.; BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 07/09. Datas e detalhes biográficos de Regina não têm fonte contemporânea; a página diz isso.
Terça-feira, 8 de setembroFesta da Natividade da Virgem Maria
Um nascimento que a Bíblia não conta
Leituras: Mq 5,1-4a (ou Rm 8,28-30) · Sl 12(13) · Mt 1,1-16.18-23 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado o Cristo."
Mateus 1,16 — tradução da CNBB
O fio das leituras
É festa, e a Igreja escolheu as leituras a dedo. Miqueias fala de Belém, "pequenina entre os mil povoados de Judá", de onde sairá o pastor de Israel; e diz uma frase misteriosa: Deus deixará o povo "até ao tempo em que uma mãe der à luz". A leitura alternativa, de Romanos, fala dos que Deus "predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho". E o Evangelho é a genealogia de Jesus. Note o que não há: nenhuma leitura conta o nascimento de Maria. A Bíblia não conta. A festa não celebra um relato; celebra uma pessoa. Celebra que, numa família comum de Israel, nasceu a mulher que ia dizer sim.
O texto por dentro
A genealogia parece a parte mais chata do Evangelho, e é uma das mais bem construídas. Mateus organiza os nomes em três blocos de catorze gerações: de Abraão a Davi, de Davi ao exílio, do exílio a Cristo. A história inteira de Israel cabe nessa lista, e ela caminha para um ponto.
Repare em dois detalhes. Primeiro: quarenta e dois "gerou", todos no masculino, e de repente o verbo muda: José não "gerou" Jesus; Jesus nasceu de Maria. A cadeia dos homens para, e Deus entra pela mulher. Segundo: no meio de tantos homens, aparecem quatro mulheres, e nenhuma delas é "exemplar" no sentido de vitrine: Tamar, que se disfarçou de prostituta; Raab, que era prostituta em Jericó; Rute, estrangeira; e "a mulher de Urias", Betsabeia, com quem Davi pecou. Mateus não escondeu nada. Ele mostra que Deus escreve a história da salvação com gente real, e prepara o leitor para a quinta mulher, Maria, cuja gravidez também vai parecer irregular aos olhos de José.
O trecho fecha com o nome: Emanuel, "que significa: Deus está conosco". A festa do nascimento de Maria é a festa da véspera desse nome.
A palavra no original
βίβλος γενέσεωςbíblos genéseōs — "livro da origem"Mateus 1,1
A primeira palavra do Novo Testamento é "livro", e a segunda é "gênese". Não é acaso. Na Bíblia grega que os primeiros cristãos usavam, a expressão "livro da origem" abre o relato do céu e da terra (Gn 2,4) e a genealogia de Adão (Gn 5,1). Mateus começa o Evangelho dizendo, sem dizer: aqui começa uma nova criação, uma nova humanidade. E quem lê a festa de hoje com esse óculos entende por que a Igreja celebra o nascimento de Maria: é o primeiro amanhecer dessa criação nova. Ela é a primeira criatura da humanidade refeita.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, na terceira homilia sobre Mateus, se pergunta por que o evangelista mencionou justamente aquelas mulheres. E responde: mencionou Rute, a estrangeira, e Raab, a prostituta, "para que aprendas que Ele veio acabar com todos os nossos males. Pois Ele veio como Médico, não como Juiz" (tradução livre, Homilia 3, §5). A genealogia com pecadores dentro não é um constrangimento a esconder. É o anúncio do que o Menino veio fazer.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino, na Suma Teológica (III, q. 27, a. 1), admite que a Escritura nada diz sobre a santificação de Maria antes de nascer, e nem sequer menciona o nascimento dela. Mas argumenta que é razoável crer que aquela que deu à luz o Unigênito, cheio de graça e de verdade, recebeu privilégios de graça maiores que todos os outros. Por isso a Igreja celebra o nascimento dela como celebra o de João Batista e o de Jesus: são os três únicos nascimentos do calendário. Uma nota de honestidade: Tomás, no século XIII, ainda hesitava sobre o momento exato em que Maria foi preservada do pecado; a Igreja definiu a Imaculada Conceição como dogma só em 1854. Isso não enfraquece a festa de hoje; mostra como a compreensão da fé amadurece ao longo dos séculos.
O Catecismo, citando o Concílio Vaticano II, chama Maria de "a primeira entre os humildes e pobres do Senhor, que confiadamente esperam e recebem a salvação de Deus" e diz que com ela, "excelsa filha de Sião", passada a longa espera, "cumprem-se os tempos e inaugura-se a nova economia da salvação" (Lumen Gentium 55, citada no Catecismo, n. 489). Economia, aqui, quer dizer o plano de Deus posto em prática. O nascimento de Maria é o instante em que a espera vira começo.
Deus escreveu a história da salvação com Tamar, Raab, Rute e Betsabeia dentro. Ele consegue escrever com a sua também. Hoje, agradeça pela mãe que Deus preparou para o Filho, e por Ele ter aceitado nascer numa família tão cheia de história quanto a sua.
A festa e o santo do dia
Natividade de Nossa Senhora · São Sérgio I, papa
A festa de hoje é uma das mais antigas dedicadas a Maria. Sua origem provável está em Jerusalém, no século IV, na dedicação de uma igreja no lugar onde, segundo a tradição, ficava a casa de Joaquim e Ana, os pais de Maria (a atual basílica de Sant'Ana). Os nomes dos pais não estão na Bíblia: vêm de um texto do século II chamado Protoevangelho de Tiago, que a Igreja não considera Escritura, mas que guardou a memória. Em Roma, a festa começou a ser celebrada no fim do século VII, no tempo do papa Sérgio I.
E é justamente Sérgio I o santo do dia: um papa de família síria, nascido em Palermo, que morreu em 8 de setembro de 701. Quando o imperador Justiniano II quis impor a Roma as decisões de um concílio só de bispos orientais, Sérgio recusou, e o próprio exército tomou o partido dele. Um homem de fé que soube dizer não a um imperador.
Fontes e verificação
- EscrituraMt 1,1.16.23; Mq 5,1; Rm 8,29: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (Natividade da B. V. Maria), conferido em 06/09/2026.
- MagistérioCIC 489: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026; a citação interna é de Lumen Gentium 55 (nota 136).
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 3 sobre Mateus, §5: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica III, q. 27, a. 1, corpo: newadvent.org; paráfrase. Sobre a hesitação de Tomás quanto ao momento da santificação: q. 27, a. 2. Definição dogmática da Imaculada Conceição: Pio IX, Ineffabilis Deus, 1854.
- Léxicobíblos genéseōs em Gn 2,4 e 5,1 (Septuaginta): conferido na edição de Brenton (ellopos.net).
- SantoVatican News, "Festas litúrgicas: Natividade de Nossa Senhora" e Santo do dia, 08/09.
Quarta-feira, 9 de setembroMemória de São Pedro Claver · 23ª semana do Tempo Comum
Felizes vocês, os pobres
Leituras: 1Cor 7,25-31 · Sl 44(45) · Lc 6,20-26 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus!"
Lucas 6,20 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As leituras seguem caminhos separados, mas hoje rimam. Paulo termina o trecho da carta com uma frase que parece um sino: "Pois a figura deste mundo passa." Por isso, diz ele, quem chora viva como se não chorasse, quem compra como se não possuísse. E Jesus, no Evangelho, declara felizes justamente os que este mundo não considera felizes: os pobres, os que têm fome, os que choram, os odiados. Os dois textos pedem a mesma coisa: olhar o mundo com os olhos de quem sabe que ele passa.
O texto por dentro
Mateus tem o Sermão da Montanha; Lucas tem o Sermão da Planície: Jesus desce com os discípulos e para num lugar plano (Lc 6,17), no meio de uma multidão que veio de longe. As bem-aventuranças de Lucas são diferentes das de Mateus em três coisas. São quatro, não oito. São ditas na segunda pessoa: "felizes vós", olhando nos olhos. E cada uma tem um espelho: quatro "ai de vós". Ai dos ricos, dos fartos, dos que riem, dos elogiados.
"Ai" não é uma maldição. Na boca dos profetas, "ai" é um lamento, o grito de quem vê alguém caminhando para o desastre e avisa. Jesus não amaldiçoa os ricos; lamenta por eles, porque "já tendes vossa consolação": trocaram o que dura pelo que passa. E note que Lucas diz "os pobres", sem o "em espírito" de Mateus. Não é contradição entre os evangelistas: é ênfase. Lucas insiste que Deus olha primeiro para quem não tem nada, e que essa preferência não é figura de linguagem.
A palavra no original
πτωχοίptōchoí — "os pobres", no sentido de "os mendigos"de ptōchós
O grego tem duas palavras para pobre. Pénēs é o pobre que trabalha e vive apertado. Ptōchós é o mendigo, o que se encolhe, o que não tem nada e depende dos outros. Um comediante grego, Aristófanes, explicou a diferença: a vida do ptōchós é viver sem ter nada; a do pénēs é viver economizando. Jesus escolheu a palavra do mendigo. Felizes os que não têm nada, porque só quem não tem nada recebe tudo de Deus. É essa a lógica do Reino, e ela vale para o pobre de bens e para quem descobre que, diante de Deus, é mendigo mesmo com a conta cheia.
Como os Padres leram
São Cirilo de Alexandria notou a diferença entre os dois evangelistas e não a escondeu: Lucas diz "os pobres" sem acrescentar "em espírito". Os evangelistas, explica ele, não se contradizem; dividem o relato entre si, e o que um omite o outro completa. E entende que os pobres de Lucas são "os que não se importam com a riqueza, são superiores à cobiça" e não dão valor à ostentação. Cirilo acrescenta uma precisão importante: o aviso de Jesus "não atinge todos os que têm bens em abundância, mas só aqueles cujo desejo está posto nas riquezas" (tradução livre do Sermão 27 sobre Lucas). O problema não é ter; é ser tido.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás explica por que a pobreza vem em primeiro lugar na lista das bem-aventuranças (Suma Teológica I-II, q. 69, a. 3). A felicidade falsa começa pela abundância de bens externos, riquezas e honras; por isso a primeira bem-aventurança tira o primeiro obstáculo: "bem-aventurados os pobres em espírito", que ele lê como desprezo das riquezas e das honras, fruto da humildade. Primeiro se esvazia a mão; depois ela pode receber.
O Catecismo diz que o amor da Igreja pelos pobres "faz parte da sua constante tradição" e que esse amor "inspira-se no Evangelho das bem-aventuranças" (Catecismo, n. 2444, edição portuguesa). E a nota de rodapé desse parágrafo remete exatamente ao Evangelho de hoje, Lucas 6,20-22. Quando a Igreja fala dos pobres, está citando esta página.
Em que você está "posto"? Onde está o seu desejo? A bem-aventurança de hoje não pede que você fique miserável; pede que você se reconheça mendigo diante de Deus, e que trate os mendigos de verdade como Deus os trata: primeiro.
Santo do dia
São Pedro Claver, jesuíta, "escravo dos negros para sempre"
Nasceu em Verdú, na Catalunha, em 1581. Ainda estudante, perguntava ao porteiro do colégio jesuíta de Maiorca, o santo Afonso Rodríguez, como fazer para amar de verdade o Senhor; e o porteiro o mandou para as Américas. Chegou a Cartagena, na atual Colômbia, em 1610, o maior porto de escravos do continente, e foi ordenado ali em 1616. Assinou os votos com uma fórmula que resumiu sua vida: Aethiopum semper servus, "escravo dos negros para sempre".
Por 44 anos, cada vez que um navio negreiro chegava, ele ia de barco ao encontro dos escravos, levava comida, remédio e conforto, curava feridas, aprendeu a língua dos angolanos e usou dezoito intérpretes para catequizar. Estima-se que batizou cerca de trezentas mil pessoas. Foi acusado de profanar os sacramentos por administrá-los a pessoas que, diziam, "mal entendiam". Adoeceu da peste em 1650 e passou os últimos quatro anos imobilizado, esquecido, numa enfermaria. Morreu em 8 de setembro de 1654. Leão XIII o canonizou em 1888, junto com o porteiro que o enviou. É o santo do Evangelho de hoje: os pobres, primeiro.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 6,20.24; 1Cor 7,31: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (quarta-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026. A cor branca do dia (memória) consta da mesma fonte; o santo, na Vatican News.
- MagistérioCIC 2444: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026; nota 196 do parágrafo: "Cf. Lc 6,20-22".
- PatrísticaCirilo de Alexandria, Comentário sobre Lucas, Sermão 27: texto integral em tertullian.org (trad. Payne Smith, 1859); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 69, a. 3, corpo: newadvent.org; paráfrase.
- Léxicoptōchós: LSJ (lsj.gr), s.v., com a citação de Aristófanes, Pluto 552; BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, artigo integral "S. Pedro Claver, presbítero jesuíta, apóstolo entre os negros deportados" (datas e fatos conforme o artigo; o número de batizados é a estimativa tradicional que a própria fonte apresenta).
Quinta-feira, 10 de setembro23ª semana do Tempo Comum · Ano par
Misericordiosos como o Pai
Leituras: 1Cor 8,1b-7.11-13 · Sl 138(139) · Lc 6,27-38 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso."
Lucas 6,36 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Paulo abre a leitura com uma frase que caberia num cartaz: "o conhecimento incha, a caridade é que constrói." Ele fala de cristãos que sabiam que os ídolos não são nada e, com esse saber, feriam a consciência dos irmãos mais frágeis. Saber estava certo; amar estava faltando. Jesus, no Evangelho, dá a medida desse amor: amar quem não ama de volta, fazer o bem a quem odeia, emprestar sem esperar. As leituras não foram combinadas de propósito, mas o ponto de contato é evidente: o cristão não se mede pelo que sabe, e sim pelo quanto o amor dele vai além do que é razoável.
O texto por dentro
O trecho começa com "A vós que me escutais": é dito a quem já decidiu ouvir. Não é um programa para governos; é um modo de vida para discípulos. E é radical de propósito. Jesus repete três vezes a mesma pergunta: "que recompensa tereis?", se amais só quem vos ama, se fazeis o bem só a quem o faz, se emprestais só a quem devolve. "Até os pecadores fazem assim." A regra de ouro, "O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles", já existia em outras culturas. O que Jesus acrescenta é o que ninguém tinha dito: inclua os inimigos.
E dá o motivo, que não é "para ser bonzinho". É para ser filho: "sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus". A gente se parece com o pai quando faz o que o pai faz. O trecho fecha com a imagem da medida: a mesma que você usa para os outros será usada com você. Não como ameaça; como lei da vida.
A palavra no original
οἰκτίρμονεςoiktírmones — "misericordiosos", "compassivos"de oiktírmōn
No trecho paralelo de Mateus, Jesus diz "sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito" (Mt 5,48). Lucas escolheu outra palavra: oiktírmōn, aquele que sente compaixão, que se comove. E não é uma palavra qualquer. É a que a Bíblia grega usa quando Deus se apresenta a Moisés no Sinai como Deus compassivo e misericordioso (Ex 34,6; em hebraico, rachum, palavra da mesma raiz de "útero"). Quando Jesus diz "sede misericordiosos como o Pai", está citando a definição que Deus deu de si mesmo. A perfeição que Lucas pede tem um nome: compaixão.
Como os Padres leram
Santo Agostinho, comentando o Sermão da Montanha, juntou as duas versões, a de Mateus e a de Lucas, numa só frase. A perfeição da misericórdia, diz ele, "não pode ir além do amor ao inimigo; e por isso as palavras finais são: sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (tradução livre, Sobre o Sermão do Senhor na Montanha, I, 21, 69). Ou seja: o "perfeito" de Mateus e o "misericordioso" de Lucas são a mesma coisa vista de dois lados, e o ponto mais alto dos dois é o mesmo: amar quem nos quer mal.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás pergunta se a caridade exige amar os inimigos (Suma Teológica II-II, q. 25, a. 8) e responde com uma distinção que ajuda muito. Amar o inimigo enquanto inimigo, isto é, amar o mal que ele faz, seria perverso. Mas amar o inimigo enquanto pessoa, não o excluindo do amor que devemos a todos, isso a caridade exige. E ter um afeto especial por ele, procurá-lo, fazer-lhe o bem: isso é a perfeição da caridade. E acrescenta: quanto mais alguém ama a Deus, mais deixa de lado as inimizades, como quem ama muito um amigo e por isso ama até os filhos dele, mesmo que sejam hostis.
O Catecismo, ao falar da caridade, começa pela cruz: "Cristo morreu por amor de nós, sendo nós ainda ‘inimigos’". E tira a consequência: "O Senhor pede-nos que, como Ele, amemos até os nossos inimigos" (Catecismo, n. 1825, edição portuguesa). Amamos inimigos porque fomos amados quando éramos inimigos.
Pense em uma pessoa concreta que você tem dificuldade de amar. Não precisa gostar dela hoje. Reze por ela hoje. É por aí que se começa a ser parecido com o Pai.
Santo do dia
São Nicolau de Tolentino, presbítero agostiniano
Nasceu em 1245 na região das Marcas, na Itália, na diocese de Fermo. Ainda adolescente conheceu os agostinianos e se apaixonou pela vida religiosa, à qual se consagrou em Tolentino, cidade cujo nome levou para sempre. Era um homem de longas orações e jejuns duros, e ao mesmo tempo, dizem as fontes, de "sorriso amável": penitência sem azedume, o que é raro. Morreu em 1305. Um bom santo para o dia em que Jesus pede que sejamos misericordiosos: dá para ser exigente consigo e manso com os outros.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 6,27.35.36; 1Cor 8,1b: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (quinta-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026. Mt 5,48 e Ex 34,6: referências, não citação literal da CNBB.
- MagistérioCIC 1825: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026 (nota 77: Cf. Mt 5,44).
- PatrísticaAgostinho, De sermone Domini in monte I, 21, 69: texto integral em newadvent.org (NPNF I/6); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 25, a. 8, corpo e resposta à 1ª objeção: newadvent.org; paráfrase.
- Léxicooiktírmōn: LSJ (lsj.gr), s.v., que registra Ex 34,6 (Septuaginta) e Lc 6,36; equivalência com o hebraico rachum conforme Thayer, s.v.; BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 10/09.
Sexta-feira, 11 de setembro23ª semana do Tempo Comum · Ano par
O cisco e a trave
Leituras: 1Cor 9,16-19.22b-27 · Sl 83(84) · Lc 6,39-42 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não percebes a trave que há no teu próprio olho?"
Lucas 6,41 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Paulo descreve o próprio jeito de evangelizar: "Com todos, eu me fiz tudo, para certamente salvar alguns." Livre em relação a todos, fez-se servo de todos "a fim de ganhar o maior número possível". É o mesmo verbo do Evangelho de domingo, "ganhar o irmão". O Evangelho de hoje mostra o outro lado: o discípulo que quer corrigir os outros sem se corrigir. "Pode um cego guiar outro cego?" As duas leituras falam de quem conduz alguém: Paulo, que se faz servo para conduzir; e o hipócrita, que quer conduzir sem enxergar.
O texto por dentro
Jesus fala em imagens curtas, quase engraçadas. Um cego guiando outro cego; um cisco (uma palhinha, uma lasca) no olho do irmão e uma trave, uma viga de casa, no próprio olho. O exagero é proposital: é humor de mestre para que ninguém esqueça. E no meio, uma frase que explica o resto: "todo discípulo bem formado será como o mestre". Você vai ficar parecido com quem te guia. Por isso importa tanto quem guia, e por isso quem guia precisa enxergar.
Repare que Jesus não proíbe tirar o cisco do olho do irmão. Ele diz "primeiro" e "então": tira a trave, e então poderás enxergar bem para ajudar. A ordem é o ponto. A correção fraterna de domingo continua válida; o que hoje ele denuncia é a correção de quem se põe acima, com um olho pior que o do corrigido.
A palavra no original
ὑποκριτάhypokritá — "hipócrita", literalmente "ator"de hypokritḗs
Antes de virar xingamento, hypokritḗs era uma profissão. No grego clássico, é o ator de teatro, quem representa um papel no palco, quem fala por trás de uma máscara. Só na Bíblia grega e no Novo Testamento a palavra passa a significar o fingidor. Quando Jesus chama alguém de hipócrita, está dizendo: você está encenando. Faz o papel de quem cuida do olho do irmão, mas a cena é sobre você. Tirar a trave é tirar a máscara.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, comentando o trecho paralelo de Mateus, avisa que Jesus não está proibindo todo julgamento, senão a vida em comum ficaria impossível. O alvo, diz ele, são "os que estão cheios de inúmeros males e pisam nos outros por ninharias". E explica a dureza da palavra "hipócrita": esse tipo de julgamento não nasce de cuidado, mas de má vontade; "enquanto alguém apresenta uma máscara de benevolência, está fazendo uma obra da pior maldade" (tradução livre da Homilia 23 sobre Mateus). A máscara, de novo.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás dá uma regra prática para o olho da gente (Suma Teológica II-II, q. 60, a. 4): quando não temos sinais evidentes da maldade de alguém, devemos considerá-lo bom, interpretando para o melhor o que é duvidoso. E responde à objeção óbvia, "mas assim a gente se engana": é melhor errar muitas vezes pensando bem de alguém mau do que errar poucas vezes pensando mal de alguém bom, porque no segundo caso se comete uma injustiça, e no primeiro não.
O Catecismo repete a regra e cita Santo Inácio de Loyola: "Para evitar o juízo temerário, cada um procurará interpretar em sentido favorável, tanto quanto possível, os pensamentos, as palavras e os actos do seu próximo" (Catecismo, n. 2478, edição portuguesa). E, na sequência, o próprio Inácio, citado pelo Catecismo: "Todo o bom cristão deve estar mais pronto a interpretar favoravelmente a opinião ou afirmação obscura do próximo do que a condená-la" (Exercícios Espirituais 22, citado no Catecismo, n. 2478).
Faça hoje um exercício simples: cada vez que pensar mal de alguém, procure a leitura mais favorável possível do que a pessoa fez. Se não encontrar, reze por ela. A trave começa a sair assim.
Santo do dia
Santos Proto e Jacinto, mártires
Dois mártires de Roma, sepultados na Via Salária. Aqui vale a honestidade que o próprio calendário pede: o martírio deles é comprovado por muitos documentos antigos, mas a história que se conta sobre eles é mais lenda do que crônica. A tradição diz que eram dois escravos cristãos que ajudaram a patroa, Eugênia, a se converter, e depois uma amiga dela, Bassila; o noivo desta os denunciou, e os três foram mortos. O que é seguro: foram cristãos, foram mortos pela fé, e a Igreja de Roma os venera desde os primeiros séculos. Às vezes a Igreja guarda um nome e um túmulo, e isso basta.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 6,39.41.42; 1Cor 9,19.22b: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (sexta-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026. O verbo "ganhar" (kerdaínō) em 1Cor 9,19-22 e em Mt 18,15: observação lexical, não citação.
- MagistérioCIC 2478: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026; a citação interna é de Inácio de Loyola, Exercitia spiritualia 22 (nota 238).
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 23 sobre Mateus (Mt 7,1-5), §1-2: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10); tradução livre. Trecho paralelo ao Evangelho de hoje.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 60, a. 4, corpo e resposta à 1ª objeção: newadvent.org; paráfrase.
- Léxicohypokritḗs: LSJ (lsj.gr), s.v. ("ator"; sentido de "fingidor" na Septuaginta e no NT); BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 11/09 (que declara o caráter lendário do relato).
Sábado, 12 de setembroSantíssimo Nome de Maria (memória facultativa) · 23ª semana
Um só pão, um só corpo
Leituras: 1Cor 10,14-22 · Sl 115(116) · Lc 6,43-49 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB
A palavra do dia
"O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão."
1 Coríntios 10,16-17 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Hoje a primeira leitura pede o centro do palco. Paulo escreve sobre a Eucaristia por volta do ano 55, antes de qualquer Evangelho ser escrito; é o testemunho mais antigo que temos sobre o que os cristãos faziam quando se reuniam. E o Evangelho fecha a semana com a casa construída sobre a rocha: "Por que me chamais: ‘Senhor! Senhor!’, mas não fazeis o que eu digo?" Os dois textos se completam: a Eucaristia faz de nós um só corpo, e esse corpo só fica de pé se põe em prática a palavra. Comunhão que não vira vida é casa sem alicerce.
O texto por dentro
O contexto de Paulo é concreto. Em Corinto, a carne vendida no mercado vinha de sacrifícios aos ídolos, e havia banquetes nos templos pagãos. Alguns cristãos achavam que podiam participar, já que "o ídolo não é nada". Paulo responde com um argumento que só funciona se todos aceitarem uma coisa como certa: que o cálice e o pão da ceia cristã são comunhão real com o sangue e o corpo de Cristo. Ele não está ensinando isso; está pressupondo. É a fé que a comunidade já tinha. Por isso, diz ele, não dá para beber do cálice do Senhor e do cálice dos demônios.
"O cálice da bênção" era o nome do cálice sobre o qual, na ceia judaica, se rezava a bênção. Paulo usa a linguagem da mesa de família de Israel para falar da mesa de Cristo. E tira uma consequência que vai além do rito: se o pão é um só, os que comem dele viram um só corpo. A Eucaristia não é só "eu e Jesus"; é "nós", feito por Ele.
A palavra no original
κοινωνίαkoinōnía — "comunhão", "participação", "ter parte em"
É uma das palavras mais ricas do Novo Testamento. No grego comum, koinōnía era sociedade, parceria, o que pessoas têm em comum: sócios num negócio, cônjuges num casamento, cidadãos numa cidade. Paulo pega essa palavra e a aplica ao cálice e ao pão: comungar é ter parte no sangue e no corpo de Cristo, ser sócio dele, entrar na vida dele. E no versículo seguinte usa outro verbo, "participamos", para dizer o que acontece com a gente: quem tem parte no mesmo pão passa a ter parte um no outro. Comunhão, em grego, nunca é coisa de um só.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, na Homilia 24 sobre a Primeira Carta aos Coríntios, faz a pergunta mais direta possível: "Que é o pão? O Corpo de Cristo. E em que se tornam os que dele participam? O Corpo de Cristo: não muitos corpos, mas um só corpo." E explica com a imagem do próprio pão: assim como o pão feito de muitos grãos se torna um só, de modo que os grãos não aparecem mais, assim nós somos unidos uns aos outros e a Cristo (tradução livre). E cobra: se todos somos alimentados do mesmo e nos tornamos o mesmo, por que não mostramos o mesmo amor?
Doutor e Catecismo
Santo Tomás ensina que em todo sacramento há o sinal e a realidade que ele produz. A realidade última da Eucaristia, diz ele, "é a unidade do corpo místico", isto é, a unidade da Igreja, sem a qual não há salvação (Suma Teológica III, q. 73, a. 3). O pão consagrado é o Corpo de Cristo; e o que ele produz em quem o recebe é o corpo de Cristo que somos nós.
O Catecismo tem um título que parece um lema: "A unidade do corpo Místico: a Eucaristia faz a Igreja." E cita Santo Agostinho pregando aos recém-batizados: "Se sois o corpo de Cristo e seus membros, é o vosso sacramento que está colocado sobre a mesa do Senhor, é o vosso sacramento que recebeis. Vós respondeis ‘Ámen’ àquilo que recebeis e, ao responder, o subscreveis" (Sermão 272, citado no Catecismo, n. 1396, edição portuguesa). O "amém" da comunhão é uma assinatura: eu aceito ser parte deste corpo.
Na próxima comunhão, quando disser "amém", lembre que está assinando: aceito ser um só corpo com quem está no banco ao lado. Depois, faça o que Jesus diz. É assim que a casa fica de pé.
A memória do dia
Santíssimo Nome de Maria
Sábado é o dia da semana tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora, e hoje o calendário permite celebrar o nome dela. A devoção ao Nome de Maria é antiga, mas a festa tem uma história curiosa: nasceu numa única diocese da Espanha, Cuenca, em 1513; foi suprimida, restaurada e, em 1671, estendida a toda a Espanha. Em 1683, depois que o rei polonês João Sobieski venceu o cerco turco a Viena invocando o nome de Maria, o papa Inocêncio XI estendeu a festa à Igreja inteira e a fixou em 12 de setembro. Na reforma do calendário de 1969 ela saiu; voltou em 2002, como memória facultativa, na terceira edição do Missal Romano.
Por que celebrar um nome? Porque, para a Bíblia, o nome é a pessoa. Dizer "Maria" é chamar a mulher que disse sim, e que Jesus, da cruz, entregou a nós como mãe. É uma memória de piedade, não um dogma; mas é uma piedade que a Igreja inteira abraçou, e que cabe num sábado.
Fontes e verificação
- Escritura1Cor 10,16-17; Lc 6,46.48: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (sábado da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026. As aspas internas de Lc 6,46 foram convertidas em aspas simples curvas (regra tipográfica do projeto); o texto não mudou.
- MagistérioCIC 1396: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026; a citação interna é de Agostinho, Sermão 272 (nota 236). Datação de 1Coríntios (c. 55): consenso acadêmico amplo.
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 24 sobre 1Coríntios: texto integral em newadvent.org (NPNF I/12); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica III, q. 73, a. 3, corpo: newadvent.org; citação em tradução livre.
- Léxicokoinōnía: LSJ (lsj.gr), s.v.; Thayer, s.v.; BDAG como referência para o NT.
- MemóriaVatican News (edição italiana), "Santissimo Nome di Maria", 12/09: história da festa até 1683. Retirada em 1969 e restauração em 2002: J. A. Goñi, "El Calendario Romano a los 40 años de su promulgación", Phase 291 (2009); a cor branca do dia consta da Liturgia Diária da CNBB e a memória, do calendário da Vatican News (edição inglesa).